O Dia em que Deus Morreu (Nova Iorque 2002)

Eu próprio me ofereço ao meu amor […], assim falam todos os criadores.”

Nietzsche in Assim Falou Zaratrusta



1.

Hoje vi-te 
com 

asas 

num corpo 
esforçado 


de vermelho.



Uma força 
com a cor 
da noite 

e o pesar 


de um gigante.

Reconheci-te 
nos muros 


que levanto 


à procura 
do ser.

Olhei para ti e 
disse-te 

que o céu 


é azul.

E, como sol 
escondido

por trás 

de uma nuvem,

as tuas costas 


perderam 
as curvas 

e o teu corpo

pairou leve 


numa brisa 
azul 


por entre 

branco.


Uma gaivota 


azul 


a voar 
no infinito.


Ao ver-te, 

quis 
abrir 
a porta 



da gaiola

onde te tenho 


preso.

Apercebi-me então que estava 


preso 
contigo,


com as chaves 
para abrir a porta


ao alcance 


do meu sonho.

Estávamos os dois 
juntos 

na gaiola.


Tu a não voar 
para que eu pudesse 


caminhar,


eu a caminhar 

para que tu pudesses 



voar.


Vi-te frágil 
e delicado 


como uma
pétala 
de infinita 
harmonia e, 

com mãos 
duras 
de 


lavrador,

agarrei-te 


com a força 
da fidelidade

e pus o meu corpo 


em frente 
aos ventos.

E duro, 


com a cara queimada 
pelo sol,



dei-te 
a minha vida.

2.

Sombras sem caras dançam escondidas 
em torres perdidas no mar.
Véus que suspiram pesar cuspido em amar,
sem que amar nao fosse.
Beijadas como paredes, como terminações
do que não tem fim.
Vasos à frente, amados com angústia
pelas flores.
Espelhos do que não é sendo.
Brisas amargas de tulipas choram
as pedras da traição, e clamam
gritando pelo suspiro do silêncio.
A gota no mar quer ser gota, 
não mar.
Corre por entre campos de verde e vermelho,
escorre, suspira, amordaça, chicoteia,
ama.
Onde está o meu mar? 
Onde está o meu mar?
Faça-se silêncio!
Um deus vai morrer.
Prepare-se a cerimónia, vistam-se 
as estátuas de brandura, 
queime-se o ímpeto do que morreu sem morrer.
Ah amargura do querer ser, inocente
prostituta que me acaricias o sexo com a luxúria.
Sim, 
quero-te possuir. Quero-te ter.
Corre no meu sexo, 
chama-me deus.
Estou vivo!
Estou vivo!
Perde-te no caos existência sem pesar.
Sublima-te no teu cheiro a cão. Ladra.
Livros beijam cabelos,
porque um dia hás-de uivar.
Em frente à lua,
quem lá foi para contar.
Gotas de mar sem mar no mar.
É apenas mar. Lambe o sublime.

2.

Tentação de ir brincar 

com o mar 
e esquecermo-nos 

da areia.

Aprendo com os mestres. 

Tem cinco anos e faz castelos 



de areia.

Ao mar, 
vai tomar o seu banho. 

Depois 
volta 


à areia. 

Brinca no castelo e conforta-se 

com o sol.

Esse sol que antes do mar 

queima 

e depois do mar 


beija. 

A frescura do sal.

Brinco com ele.

É ele que canta, 
é ele que chora, 
é ele que brinca.

E eu, aqui, 

longe no perto, 
crio sinfonias 


à sua inocência.

Aos seus gritos, 
aos seus sussurros, 
aos seus sorrisos.

Sou um homem que gosta 

de ver

crianças 
felizes.

Esvaio-me nos ventos e observo-o 
a brincar 

feliz 

enquanto conheço o mundo 
reflectido 

na inocência 


dos seus olhos.

Há que saber ser um bom 

pai.

Há que saber ser uma boa 

amante.

Há que saber ser um bom 

irmão.

Diz-se educação.


Há que saber educar para se ser 


analfabeto.

Há que ser sábio. 


Beijá-lo com a ignorância.

3.

Troco as montanhas pelo mar.
Esvaio-me na pureza das ondas azuis
e deixo a montanha branca a brilhar lá ao longe.
Vejo a montanha lá ao fundo e,
como farol para um barco,
diz-me onde estou.
E assim, naufrago sem naufragar.
Para quê perder-me se me posso perder encontrado?
Porque é possível estar sem ser
e ser sem estar,
eu prefiro estar e ser.
Quem só é sem estar,
perde o que é ser o estar.
Para isso tenho todo o sempre,
quando um dia voar e for de novo ar.
Agora quero estar. Sendo.
Um homem no seu tempo.
Um homem sem tempo.
Sou e estou.
Em paz.

4.

Há um teatro que se esconde nos meus sonhos 
onde tu me beijas 

sendo eu.

Cantas amor para mim e enches-me 

de vermelhos

e mares 

que fluem sobre 
a minha pele, 
beijando-a 

com o cheiro forte da carne.

Nesse teatro eu sou eu 

e tu és eu.

Vejo-te a ti e a mim 
como um espectador apaixonado 
por um quadro de sublimação
do querer e, 

de fora, 

jogo contigo 

e comigo

num jogo de marionetes 
em que tu falas para mim e 

eu falo para ti.

Falas comigo e mostras-me

a beleza esquecida 


na imensidão


do nada.

Estás tão perto e tão longe 
que perco-me.

Perco-me e encontro-te.

No meio do teatro.

5.

Entre chuvas sem vazio 
bramindo vozes de oceanos 
deixo-me arrastar pelos ventos que sopram forte.
Não há montanha que não suba,
não há pedra que não abra por entre rochas de rios.
A força que beija o mar perdido nas montanhas do infinito.
A minha força.

6.

Agarro-te com as mãos duras,
mães endurecidas 

pelos calos 

da paixão.

Sublimo-te com um abraço 

que se deita
em pedras cruas,

que se afoga 
nas entranhas que me ardem.

Fogo que me rasgas,
flor que brames em gritos brancos,

sangue que escorre do teu ventre.

Estátuas de mar,

ventos de tempestade 

que agarro 
com a força dos meus braços

e amo 

como pétalas perdidas

numa lágrima de criança.

Agarro esses ventos que levantam árvores
e beijo-os 
com a paixão 

do meu corpo

suado, porco, 

de te amar.

Ah, sonho azul que me rasgas as entranhas.
Anda, vem, 

que te vou agarrar 
em gritos de silêncio

por entre esses olhos que amam 

perdidos no mar.

Esse teu toque brando 

que me afoga
de encontro às paredes deitadas sobre

os corpos 

que me cortaram a carne.

Cortem-me malditos 

que vos vou amar

como putas, como deusas, como seios desenhados 
em carne 

com sabor ao teu sexo.

Luto contigo como corpo contra barro

moldo-te e moldas-me
no meio deste fogo que arde 

sem ar.

Perdi-me em ti amor.


Na tua brisa 

cor de maresia.

Na graça com que beijaste 
meu pudor.

7.

Fui nadar num rio guardado por deusas que sorriem brisas.
Caminhei nu sem nudez.
Musas sorriam como aves por entre nuvens.
Senti gotas de água suavemente a entrar 
nos poros da minha pele.
Senti poeiras escondidas no vento 
a beijarem cada recanto do meu corpo.
Senti cada pequeno nada escondido
na imensidão do teu olhar.
De repente, tudo encaixou sem encaixar.
Um sorriso com lágrimas azuis de êxtase 
e um sentimento de vitrais de cor branca.
Uma força de infinita paixão beijada com a mais bela serenidade.
E, finalmente, percebi.

Já sabia. 

Sempre soubera.

8.

São ondas que acalmo no medo de não te encontrar.
Ah, se me desses um raio de luz num sorriso!
Por ti levantaria mares, 

por ti abriria rochas, 

por ti
beijaria o sol.

9.

Sinto as palavras gastas. 

Escavadas, 

cheiradas.

Quero cantar mas 
perco-me 

em ti.

Em cada palavra, 
sinto o teu cheiro 

a agarrar-me 
a garganta,
como um beijo, 
como uma trinca que enche 

todo o meu corpo 

de mar

perdido em amar.

Não mais consigo escrever, 
pois cada palavra 

já não é palavra.

Sao ventos com que me agarras, 

vulcões de água 

com que me beijas,

subo e desço, 
atiro-me aos ventos,
caio de montanhas,

mares de vertigens 
que rugem 

em todo o meu corpo.

Já não são palavras.

São danças de beijos, 
histórias de amor,

sinfonias 

da nossa secreta insignificância.

Sim, és tu. 

Doce bicho,

apaixonado deus.

Sim, és tu que inflamas meu peito,
que ardes meus olhos,
que me atiras como um dardo 

de encontro

ao infinito 
de teu amar.

Ah, mar que ardes em minha alma,
infinitude de cores que bramem sentir
pintado em convulsões animais
que me matam, 
e me fazem nascer
e correr 
e beijar 
e trovejar
e cantar 
e amar.

Caminho já como espectador
de teu sentir,
agarrando cada tua lágrima com a força 

de meus braços,

transformando cada teu grito 

numa estátua,

imortalizando teu sentir 

em meus olhos.

És musa, és deusa,
és um harmonioso silêncio que beija 

com a tua paz

um doce bicho e o faz rugir sinfonias 

de ternura

que me ardem o peito.

Perdi as palavras.



Ouço apenas silêncio 


em cores de mar.

10.

Flutua harmonioso silêncio. 
Suspira esse vento azul 
que arde 

em meus olhos.

11.

Fui invadido pela indiferença
ao amargo sentir abraçando
teu pueril amar.
Sou agora um homem
de corpo forte e austero
sem fala.
Caminho ao teu lado em silêncio,
subindo-te em meus braços
quando queres ver o mar que passa.
Meu corpo,
uso-o para te proteger dos
ventos que sopram fortes nas ruas.
Já não te julgo,
já não te calo.
Apenas caminho contigo,
mão em mão, mudo,
abrindo as portas em que queres entrar.
Ver-te sorrir é benção
que me ilumina em branco,
ver-te amar 
é em ti morrer
e eu
deixar de ser.

12.

Lembro-me de um dia em que ouvi 

o sol


e não vi luz.

Confundido, 

parei a olhar 
para as paredes.

Eram altas, 
fortes, 
sólidas, 

cimentadas com a água 


da trágica virtude.


Dei-lhes um beijo,

e choraram.


Não percebi.

Porque choravam 

tão sólidas 
paredes?

E assim, 

triste 


pelo seu choro,

cada tijolo tirei e 
cada tijolo beijei.

Quando acabei,
os tijolos 

haviam desaparecido.


Morreras.

Adeus 

meu tão grande amor.

Comentários