Domingo, 18 de Maio de 2008

O DIA EM QUE DEUS MORREU (Nova Iorque, 2002)

“Eu próprio me ofereço ao meu amor […], assim falam todos os criadores.”

Nietzsche in Assim Falou Zaratrusta

1.

Hoje vi-te
com

asas

num corpo
esforçado


de vermelho.



Uma força
com a cor
da noite

e o pesar


de um gigante.

Reconheci-te
nos muros


que levanto


à procura
do ser.

Olhei para ti e
disse-te

que o céu


é azul.

E, como sol
escondido

por trás

de uma nuvem,

as tuas costas


perderam
as curvas

e o teu corpo

pairou leve


numa brisa
azul


por entre

branco.


Uma gaivota


azul


a voar
no infinito.


Ao ver-te,

quis
abrir
a porta



da gaiola

onde te tenho


preso.

Apercebi-me então que estava


preso
contigo,


com as chaves
para abrir a porta


ao alcance


do meu sonho.

Estávamos os dois
juntos

na gaiola.


Tu a não voar
para que eu pudesse


caminhar,


eu a caminhar

para que tu pudesses



voar.


Vi-te frágil
e delicado


como uma
pétala
de infinita
harmonia e,

com mãos
duras
de


lavrador,

agarrei-te


com a força
da fidelidade

e pus o meu corpo


em frente
aos ventos.

E duro,


com a cara queimada
pelo sol,



dei-te
a minha vida.

2.

Sombras sem caras dançam escondidas
em torres perdidas no mar.
Véus que suspiram pesar cuspido em amar,
sem que amar nao fosse.
Beijadas como paredes, como terminações
do que não tem fim.
Vasos à frente, amados com angústia
pelas flores.
Espelhos do que não é sendo.
Brisas amargas de tulipas choram
as pedras da traição, e clamam
gritando pelo suspiro do silêncio.
A gota no mar quer ser gota,
não mar.
Corre por entre campos de verde e vermelho,
escorre, suspira, amordaça, chicoteia,
ama.
Onde está o meu mar?
Onde está o meu mar?
Faça-se silêncio!
Um deus vai morrer.
Prepare-se a cerimónia, vistam-se
as estátuas de brandura,
queime-se o ímpeto do que morreu sem morrer.
Ah amargura do querer ser, inocente
prostituta que me acaricias o sexo com a luxúria.
Sim,
quero-te possuir. Quero-te ter.
Corre no meu sexo,
chama-me deus.
Estou vivo!
Estou vivo!
Perde-te no caos existência sem pesar.
Sublima-te no teu cheiro a cão. Ladra.
Livros beijam cabelos,
porque um dia hás-de uivar.
Em frente à lua,
quem lá foi para contar.
Gotas de mar sem mar no mar.
É apenas mar. Lambe o sublime.

2.

Tentação de ir brincar

com o mar
e esquecermo-nos

da areia.

Aprendo com os mestres.

Tem cinco anos e faz castelos



de areia.

Ao mar,
vai tomar o seu banho.

Depois
volta


à areia.

Brinca no castelo e conforta-se

com o sol.

Esse sol que antes do mar

queima

e depois do mar


beija.

A frescura do sal.

Brinco com ele.

É ele que canta,
é ele que chora,
é ele que brinca.

E eu, aqui,

longe no perto,
crio sinfonias


à sua inocência.

Aos seus gritos,
aos seus sussurros,
aos seus sorrisos.

Sou um homem que gosta

de ver

crianças
felizes.

Esvaio-me nos ventos e observo-o
a brincar

feliz

enquanto conheço o mundo
reflectido

na inocência


dos seus olhos.

Há que saber ser um bom

pai.

Há que saber ser uma boa

amante.

Há que saber ser um bom

irmão.

Diz-se educação.


Há que saber educar para se ser


analfabeto.

Há que ser sábio.


Beijá-lo com a ignorância.

3.

Troco as montanhas pelo mar.
Esvaio-me na pureza das ondas azuis
e deixo a montanha branca a brilhar lá ao longe.
Vejo a montanha lá ao fundo e,
como farol para um barco,
diz-me onde estou.
E assim, naufrago sem naufragar.
Para quê perder-me se me posso perder encontrado?
Porque é possível estar sem ser
e ser sem estar,
eu prefiro estar e ser.
Quem só é sem estar,
perde o que é ser o estar.
Para isso tenho todo o sempre,
quando um dia voar e for de novo ar.
Agora quero estar. Sendo.
Um homem no seu tempo.
Um homem sem tempo.
Sou e estou.
Em paz.

4.

Há um teatro que se esconde nos meus sonhos
onde tu me beijas

sendo eu.

Cantas amor para mim e enches-me

de vermelhos

e mares

que fluem sobre
a minha pele,
beijando-a

com o cheiro forte da carne.

Nesse teatro eu sou eu

e tu és eu.

Vejo-te a ti e a mim
como um espectador apaixonado
por um quadro de sublimação
do querer e,

de fora,

jogo contigo

e comigo

num jogo de marionetes
em que tu falas para mim e

eu falo para ti.

Falas comigo e mostras-me

a beleza esquecida


na imensidão


do nada.

Estás tão perto e tão longe
que perco-me.

Perco-me e encontro-te.

No meio do teatro.

5.

Entre chuvas sem vazio
bramindo vozes de oceanos
deixo-me arrastar pelos ventos que sopram forte.
Não há montanha que não suba,
não há pedra que não abra por entre rochas de rios.
A força que beija o mar perdido nas montanhas do infinito.
A minha força.

6.

Agarro-te com as mãos duras,
mães endurecidas

pelos calos

da paixão.

Sublimo-te com um abraço

que se deita
em pedras cruas,

que se afoga
nas entranhas que me ardem.

Fogo que me rasgas,
flor que brames em gritos brancos,

sangue que escorre do teu ventre.

Estátuas de mar,

ventos de tempestade

que agarro
com a força dos meus braços

e amo

como pétalas perdidas

numa lágrima de criança.

Agarro esses ventos que levantam árvores
e beijo-os
com a paixão

do meu corpo

suado, porco,

de te amar.

Ah, sonho azul que me rasgas as entranhas.
Anda, vem,

que te vou agarrar
em gritos de silêncio

por entre esses olhos que amam

perdidos no mar.

Esse teu toque brando

que me afoga
de encontro às paredes deitadas sobre

os corpos

que me cortaram a carne.

Cortem-me malditos

que vos vou amar

como putas, como deusas, como seios desenhados
em carne

com sabor ao teu sexo.

Luto contigo como corpo contra barro

moldo-te e moldas-me
no meio deste fogo que arde

sem ar.

Perdi-me em ti amor.


Na tua brisa

cor de maresia.

Na graça com que beijaste
meu pudor.

7.

Fui nadar num rio guardado por deusas que sorriem brisas.
Caminhei nu sem nudez.
Musas sorriam como aves por entre nuvens.
Senti gotas de água suavemente a entrar
nos poros da minha pele.
Senti poeiras escondidas no vento
a beijarem cada recanto do meu corpo.
Senti cada pequeno nada escondido
na imensidão do teu olhar.
De repente, tudo encaixou sem encaixar.
Um sorriso com lágrimas azuis de êxtase
e um sentimento de vitrais de cor branca.
Uma força de infinita paixão beijada com a mais bela serenidade.
E, finalmente, percebi.

Já sabia.

Sempre soubera.

8.

São ondas que acalmo no medo de não te encontrar.
Ah, se me desses um raio de luz num sorriso!
Por ti levantaria mares,

por ti abriria rochas,

por ti
beijaria o sol.

9.

Sinto as palavras gastas.

Escavadas,

cheiradas.

Quero cantar mas
perco-me

em ti.

Em cada palavra,
sinto o teu cheiro

a agarrar-me
a garganta,
como um beijo,
como uma trinca que enche

todo o meu corpo

de mar

perdido em amar.

Não mais consigo escrever,
pois cada palavra

já não é palavra.

Sao ventos com que me agarras,

vulcões de água

com que me beijas,

subo e desço,
atiro-me aos ventos,
caio de montanhas,

mares de vertigens
que rugem

em todo o meu corpo.

Já não são palavras.

São danças de beijos,
histórias de amor,

sinfonias

da nossa secreta insignificância.

Sim, és tu.

Doce bicho,

apaixonado deus.

Sim, és tu que inflamas meu peito,
que ardes meus olhos,
que me atiras como um dardo

de encontro

ao infinito
de teu amar.

Ah, mar que ardes em minha alma,
infinitude de cores que bramem sentir
pintado em convulsões animais
que me matam,
e me fazem nascer
e correr
e beijar
e trovejar
e cantar
e amar.

Caminho já como espectador
de teu sentir,
agarrando cada tua lágrima com a força

de meus braços,

transformando cada teu grito

numa estátua,

imortalizando teu sentir

em meus olhos.

És musa, és deusa,
és um harmonioso silêncio que beija

com a tua paz

um doce bicho e o faz rugir sinfonias

de ternura

que me ardem o peito.

Perdi as palavras.



Ouço apenas silêncio


em cores de mar.

10.

Flutua harmonioso silêncio.
Suspira esse vento azul
que arde

em meus olhos.

11.

Fui invadido pela indiferença
ao amargo sentir abraçando
teu pueril amar.
Sou agora um homem
de corpo forte e austero
sem fala.
Caminho ao teu lado em silêncio,
subindo-te em meus braços
quando queres ver o mar que passa.
Meu corpo,
uso-o para te proteger dos
ventos que sopram fortes nas ruas.
Já não te julgo,
já não te calo.
Apenas caminho contigo,
mão em mão, mudo,
abrindo as portas em que queres entrar.
Ver-te sorrir é benção
que me ilumina em branco,
ver-te amar
é em ti morrer
e eu
deixar de ser.

12.

Lembro-me de um dia em que ouvi

o sol


e não vi luz.

Confundido,

parei a olhar
para as paredes.

Eram altas,
fortes,
sólidas,

cimentadas com a água


da trágica virtude.


Dei-lhes um beijo,

e choraram.


Não percebi.

Porque choravam

tão sólidas
paredes?

E assim,

triste


pelo seu choro,

cada tijolo tirei e
cada tijolo beijei.

Quando acabei,
os tijolos

haviam desaparecido.


Morreras.

Adeus

meu tão grande amor.

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