domingo, 7 de Junho de 2009
"Perdi-me num sonho impossível. Não sei se foi o mar que me enganou, os pássaros que me iludiram, os ventos que me confundiram. O teu perfume que me desorientou. Acordei assim, perdido, a naufragar sobre um lago cristalino que soletrava palavras de cor doce. Pois que fazer? A bússola perdera-a nos teus olhos, o mapa na tua voz. A alma nas tuas mãos. Decidi fechar os olhos e entregar-me, abandonado, ao teu olhar. Quem sabe, quando os meus olhos de novo se abrirem, te reencontrem onde se perderam."
sábado, 6 de Junho de 2009
"Asas de condor. Eis o que me faz falta. Umas asas largas como o horizonte, que abram e fechem como sonhos perdidos no mar. Asas que sirvam para tudo e para nada. Sim, se tivesse asas ia com elas para a praia e usava-as como guarda-sol. Das penas velhas fazia almofadas. Nos dias de frio usava-as como cobertor. E voava. Voos sem fim, a sobrevoar oceanos, florestas, cidades e aldeias. Veria o mundo todo com os meus olhos. Eis o que me faz falta. Umas asas de condor. Mas não tenho asas nem penso vir a tê-las. Restas-me pois tu. Restam-me os teus olhos, doces como brisas, os teus cabelos, onde me envolves num sonho eterno, as tuas mãos, onde me perco na imensidáo do silêncio. Não tenho asas. Mas encontrei-te a ti."
"- Porque chorais senhor?
- Não choro. São as lágrimas que correm. Decidiram passear.
- Assim? Sem mais?
- Sim. Não sabiam o que fazer. Ontem foram ao circo. Anteontem tinhamos ido ao cinema. Hoje lembraram-se de passear pela minha face. Percorrer os socalcos marcados pelo tempo, as intempéries da alma que ficaram gravadas na minha pele. Disse-lhes para ficarem em casa que estava frio. Mas não me deram ouvidos. Vieram passear.
- Então não chorais...
- Não. Eu nunca choro. Abraço os ventos que se levantam fortes nos oceanos, grito aos deuses que se escondem nos mares, rasgo as velas do horizonte. Mas nunca choro.
- E amais porventura senhor?
-....amar....
-Ora senhor...amar...chorar como quem beija, abraçar como quem chora, esquecer como quem lembra...
-Estou a precisar de um café. Traz-me também o jornal."
- Não choro. São as lágrimas que correm. Decidiram passear.
- Assim? Sem mais?
- Sim. Não sabiam o que fazer. Ontem foram ao circo. Anteontem tinhamos ido ao cinema. Hoje lembraram-se de passear pela minha face. Percorrer os socalcos marcados pelo tempo, as intempéries da alma que ficaram gravadas na minha pele. Disse-lhes para ficarem em casa que estava frio. Mas não me deram ouvidos. Vieram passear.
- Então não chorais...
- Não. Eu nunca choro. Abraço os ventos que se levantam fortes nos oceanos, grito aos deuses que se escondem nos mares, rasgo as velas do horizonte. Mas nunca choro.
- E amais porventura senhor?
-....amar....
-Ora senhor...amar...chorar como quem beija, abraçar como quem chora, esquecer como quem lembra...
-Estou a precisar de um café. Traz-me também o jornal."
domingo, 24 de Agosto de 2008
"Uma moeda no bolso..." pensou Tobias. Coçada, com a cor dos raios do céu que iluminavam a velha aldeia de Alflores nos finais das tardes de verão. "...50 cêntimos..." Tobias sorriu "..já ganhei o dia." Envolveu a velha moeda na sua mão, armou o seu sorriso e continuou a sua caminhada pelos campos luzidios que circundavam a velha aldeia. Havia algo assustadoramente vivo que soprava como o vento norte de Outono nesse dia dentro de Tobias. Uma cascata que lutava no seu peito, por entre labirintos de estruturas metálicas. Tobias não acreditava em barragens. "Os pássaros voam livres", pensou ele. Vagueava Tobias absorto nestes pensamentos quando encontrou uma velha no caminho. "Sempre a sonhar Tobias! Vê lá se tratas mas é desses dentes podres ou não arranjas moça!" Tobias olhou para a velha e sentiu novamente a sua velha moeda na mão. Sorriu e seguiu o seu caminho. Tobias olhou para o horizonte. Era vasto, imenso. Ao longe montanhas jaziam erigidas por trás de uma ténue névoa, tão longínqua quão suave. Tudo parecia inerte, absolutamente imóvel, estranhamente alheado dos ventos que giravam incessantemente no seu peito. Tobias decidiu então sentar-se numa pedra no sopé da montanha, a contemplar o infinito que se desenrolava ante seus olhos. As palavras da velha ressoavam dentro de si, como um sino sincopadamente alertando o seu ser. Como havia Tobias de dizer à velha que era por trás dos seus dentes podres que se escondia a força dos mil sóis, os ventos que levantam oceanos e bramem rugidos de mil leões? Tobias gostava deles assim. Neles encontrava todos os seus dias a sua história, neles desenhou cada manhã o seu mais belo sorriso. E Tobias sorriu, um sorriso do tamanho de um homem, orgulhosamente benzendo a sua alma com a autenticidade do seu sentir. Os ventos sopraram então fortes. Tobias levantou-se, agarrou com força a sua moeda, e começou a caminhar rumo ao sol. Era tempo de dar uso à sua moeda e ousar comprar o céu.
domingo, 18 de Maio de 2008
O Dia em Que Deus Morreu (Nova Iorque, 2002)
“Eu próprio me ofereço ao meu amor […], assim falam todos os criadores.”
Nietzsche in Assim Falou Zaratrusta
1.
Hoje vi-te
com
asas
num corpo
esforçado
de vermelho.
Uma força
com a cor
da noite
e o pesar
de um gigante.
Reconheci-te
nos muros
que levanto
à procura
do ser.
Olhei para ti e
disse-te
que o céu
é azul.
E, como sol
escondido
por trás
de uma nuvem,
as tuas costas
perderam
as curvas
e o teu corpo
pairou leve
numa brisa
azul
por entre
branco.
Uma gaivota
azul
a voar
no infinito.
Ao ver-te,
quis
abrir
a porta
da gaiola
onde te tenho
preso.
Apercebi-me então que estava
preso
contigo,
com as chaves
para abrir a porta
ao alcance
do meu sonho.
Estávamos os dois
juntos
na gaiola.
Tu a não voar
para que eu pudesse
caminhar,
eu a caminhar
para que tu pudesses
voar.
Vi-te frágil
e delicado
como uma
pétala
de infinita
harmonia e,
com mãos
duras
de
lavrador,
agarrei-te
com a força
da fidelidade
e pus o meu corpo
em frente
aos ventos.
E duro,
com a cara queimada
pelo sol,
dei-te
a minha vida.
2.
Sombras sem caras dançam escondidas
em torres perdidas no mar.
Véus que suspiram pesar cuspido em amar,
sem que amar nao fosse.
Beijadas como paredes, como terminações
do que não tem fim.
Vasos à frente, amados com angústia
pelas flores.
Espelhos do que não é sendo.
Brisas amargas de tulipas choram
as pedras da traição, e clamam
gritando pelo suspiro do silêncio.
A gota no mar quer ser gota,
não mar.
Corre por entre campos de verde e vermelho,
escorre, suspira, amordaça, chicoteia,
ama.
Onde está o meu mar?
Onde está o meu mar?
Faça-se silêncio!
Um deus vai morrer.
Prepare-se a cerimónia, vistam-se
as estátuas de brandura,
queime-se o ímpeto do que morreu sem morrer.
Ah amargura do querer ser, inocente
prostituta que me acaricias o sexo com a luxúria.
Sim,
quero-te possuir. Quero-te ter.
Corre no meu sexo,
chama-me deus.
Estou vivo!
Estou vivo!
Perde-te no caos existência sem pesar.
Sublima-te no teu cheiro a cão. Ladra.
Livros beijam cabelos,
porque um dia hás-de uivar.
Em frente à lua,
quem lá foi para contar.
Gotas de mar sem mar no mar.
É apenas mar. Lambe o sublime.
2.
Tentação de ir brincar
com o mar
e esquecermo-nos
da areia.
Aprendo com os mestres.
Tem cinco anos e faz castelos
de areia.
Ao mar,
vai tomar o seu banho.
Depois
volta
à areia.
Brinca no castelo e conforta-se
com o sol.
Esse sol que antes do mar
queima
e depois do mar
beija.
A frescura do sal.
Brinco com ele.
É ele que canta,
é ele que chora,
é ele que brinca.
E eu, aqui,
longe no perto,
crio sinfonias
à sua inocência.
Aos seus gritos,
aos seus sussurros,
aos seus sorrisos.
Sou um homem que gosta
de ver
crianças
felizes.
Esvaio-me nos ventos e observo-o
a brincar
feliz
enquanto conheço o mundo
reflectido
na inocência
dos seus olhos.
Há que saber ser um bom
pai.
Há que saber ser uma boa
amante.
Há que saber ser um bom
irmão.
Diz-se educação.
Há que saber educar para se ser
analfabeto.
Há que ser sábio.
Beijá-lo com a ignorância.
3.
Troco as montanhas pelo mar.
Esvaio-me na pureza das ondas azuis
e deixo a montanha branca a brilhar lá ao longe.
Vejo a montanha lá ao fundo e,
como farol para um barco,
diz-me onde estou.
E assim, naufrago sem naufragar.
Para quê perder-me se me posso perder encontrado?
Porque é possível estar sem ser
e ser sem estar,
eu prefiro estar e ser.
Quem só é sem estar,
perde o que é ser o estar.
Para isso tenho todo o sempre,
quando um dia voar e for de novo ar.
Agora quero estar. Sendo.
Um homem no seu tempo.
Um homem sem tempo.
Sou e estou.
Em paz.
4.
Há um teatro que se esconde nos meus sonhos
onde tu me beijas
sendo eu.
Cantas amor para mim e enches-me
de vermelhos
e mares
que fluem sobre
a minha pele,
beijando-a
com o cheiro forte da carne.
Nesse teatro eu sou eu
e tu és eu.
Vejo-te a ti e a mim
como um espectador apaixonado
por um quadro de sublimação
do querer e,
de fora,
jogo contigo
e comigo
num jogo de marionetes
em que tu falas para mim e
eu falo para ti.
Falas comigo e mostras-me
a beleza esquecida
na imensidão
do nada.
Estás tão perto e tão longe
que perco-me.
Perco-me e encontro-te.
No meio do teatro.
5.
Entre chuvas sem vazio
bramindo vozes de oceanos
deixo-me arrastar pelos ventos que sopram forte.
Não há montanha que não suba,
não há pedra que não abra por entre rochas de rios.
A força que beija o mar perdido nas montanhas do infinito.
A minha força.
6.
Agarro-te com as mãos duras,
mães endurecidas
pelos calos
da paixão.
Sublimo-te com um abraço
que se deita
em pedras cruas,
que se afoga
nas entranhas que me ardem.
Fogo que me rasgas,
flor que brames em gritos brancos,
sangue que escorre do teu ventre.
Estátuas de mar,
ventos de tempestade
que agarro
com a força dos meus braços
e amo
como pétalas perdidas
numa lágrima de criança.
Agarro esses ventos que levantam árvores
e beijo-os
com a paixão
do meu corpo
suado, porco,
de te amar.
Ah, sonho azul que me rasgas as entranhas.
Anda, vem,
que te vou agarrar
em gritos de silêncio
por entre esses olhos que amam
perdidos no mar.
Esse teu toque brando
que me afoga
de encontro às paredes deitadas sobre
os corpos
que me cortaram a carne.
Cortem-me malditos
que vos vou amar
como putas, como deusas, como seios desenhados
em carne
com sabor ao teu sexo.
Luto contigo como corpo contra barro
moldo-te e moldas-me
no meio deste fogo que arde
sem ar.
Perdi-me em ti amor.
Na tua brisa
cor de maresia.
Na graça com que beijaste
meu pudor.
7.
Fui nadar num rio guardado por deusas que sorriem brisas.
Caminhei nu sem nudez.
Musas sorriam como aves por entre nuvens.
Senti gotas de água suavemente a entrar
nos poros da minha pele.
Senti poeiras escondidas no vento
a beijarem cada recanto do meu corpo.
Senti cada pequeno nada escondido
na imensidão do teu olhar.
De repente, tudo encaixou sem encaixar.
Um sorriso com lágrimas azuis de êxtase
e um sentimento de vitrais de cor branca.
Uma força de infinita paixão beijada com a mais bela serenidade.
E, finalmente, percebi.
Já sabia.
Sempre soubera.
8.
São ondas que acalmo no medo de não te encontrar.
Ah, se me desses um raio de luz num sorriso!
Por ti levantaria mares,
por ti abriria rochas,
por ti
beijaria o sol.
9.
Sinto as palavras gastas.
Escavadas,
cheiradas.
Quero cantar mas
perco-me
em ti.
Em cada palavra,
sinto o teu cheiro
a agarrar-me
a garganta,
como um beijo,
como uma trinca que enche
todo o meu corpo
de mar
perdido em amar.
Não mais consigo escrever,
pois cada palavra
já não é palavra.
Sao ventos com que me agarras,
vulcões de água
com que me beijas,
subo e desço,
atiro-me aos ventos,
caio de montanhas,
mares de vertigens
que rugem
em todo o meu corpo.
Já não são palavras.
São danças de beijos,
histórias de amor,
sinfonias
da nossa secreta insignificância.
Sim, és tu.
Doce bicho,
apaixonado deus.
Sim, és tu que inflamas meu peito,
que ardes meus olhos,
que me atiras como um dardo
de encontro
ao infinito
de teu amar.
Ah, mar que ardes em minha alma,
infinitude de cores que bramem sentir
pintado em convulsões animais
que me matam,
e me fazem nascer
e correr
e beijar
e trovejar
e cantar
e amar.
Caminho já como espectador
de teu sentir,
agarrando cada tua lágrima com a força
de meus braços,
transformando cada teu grito
numa estátua,
imortalizando teu sentir
em meus olhos.
És musa, és deusa,
és um harmonioso silêncio que beija
com a tua paz
um doce bicho e o faz rugir sinfonias
de ternura
que me ardem o peito.
Perdi as palavras.
Ouço apenas silêncio
em cores de mar.
10.
Flutua harmonioso silêncio.
Suspira esse vento azul
que arde
em meus olhos.
11.
Fui invadido pela indiferença
ao amargo sentir abraçando
teu pueril amar.
Sou agora um homem
de corpo forte e austero
sem fala.
Caminho ao teu lado em silêncio,
subindo-te em meus braços
quando queres ver o mar que passa.
Meu corpo,
uso-o para te proteger dos
ventos que sopram fortes nas ruas.
Já não te julgo,
já não te calo.
Apenas caminho contigo,
mão em mão, mudo,
abrindo as portas em que queres entrar.
Ver-te sorrir é benção
que me ilumina em branco,
ver-te amar
é em ti morrer
e eu
deixar de ser.
12.
Lembro-me de um dia em que ouvi
o sol
e não vi luz.
Confundido,
parei a olhar
para as paredes.
Eram altas,
fortes,
sólidas,
cimentadas com a água
da trágica virtude.
Dei-lhes um beijo,
e choraram.
Não percebi.
Porque choravam
tão sólidas
paredes?
E assim,
triste
pelo seu choro,
cada tijolo tirei e
cada tijolo beijei.
Quando acabei,
os tijolos
haviam desaparecido.
Morreras.
Adeus
meu tão grande amor.
Nietzsche in Assim Falou Zaratrusta
1.
Hoje vi-te
com
asas
num corpo
esforçado
de vermelho.
Uma força
com a cor
da noite
e o pesar
de um gigante.
Reconheci-te
nos muros
que levanto
à procura
do ser.
Olhei para ti e
disse-te
que o céu
é azul.
E, como sol
escondido
por trás
de uma nuvem,
as tuas costas
perderam
as curvas
e o teu corpo
pairou leve
numa brisa
azul
por entre
branco.
Uma gaivota
azul
a voar
no infinito.
Ao ver-te,
quis
abrir
a porta
da gaiola
onde te tenho
preso.
Apercebi-me então que estava
preso
contigo,
com as chaves
para abrir a porta
ao alcance
do meu sonho.
Estávamos os dois
juntos
na gaiola.
Tu a não voar
para que eu pudesse
caminhar,
eu a caminhar
para que tu pudesses
voar.
Vi-te frágil
e delicado
como uma
pétala
de infinita
harmonia e,
com mãos
duras
de
lavrador,
agarrei-te
com a força
da fidelidade
e pus o meu corpo
em frente
aos ventos.
E duro,
com a cara queimada
pelo sol,
dei-te
a minha vida.
2.
Sombras sem caras dançam escondidas
em torres perdidas no mar.
Véus que suspiram pesar cuspido em amar,
sem que amar nao fosse.
Beijadas como paredes, como terminações
do que não tem fim.
Vasos à frente, amados com angústia
pelas flores.
Espelhos do que não é sendo.
Brisas amargas de tulipas choram
as pedras da traição, e clamam
gritando pelo suspiro do silêncio.
A gota no mar quer ser gota,
não mar.
Corre por entre campos de verde e vermelho,
escorre, suspira, amordaça, chicoteia,
ama.
Onde está o meu mar?
Onde está o meu mar?
Faça-se silêncio!
Um deus vai morrer.
Prepare-se a cerimónia, vistam-se
as estátuas de brandura,
queime-se o ímpeto do que morreu sem morrer.
Ah amargura do querer ser, inocente
prostituta que me acaricias o sexo com a luxúria.
Sim,
quero-te possuir. Quero-te ter.
Corre no meu sexo,
chama-me deus.
Estou vivo!
Estou vivo!
Perde-te no caos existência sem pesar.
Sublima-te no teu cheiro a cão. Ladra.
Livros beijam cabelos,
porque um dia hás-de uivar.
Em frente à lua,
quem lá foi para contar.
Gotas de mar sem mar no mar.
É apenas mar. Lambe o sublime.
2.
Tentação de ir brincar
com o mar
e esquecermo-nos
da areia.
Aprendo com os mestres.
Tem cinco anos e faz castelos
de areia.
Ao mar,
vai tomar o seu banho.
Depois
volta
à areia.
Brinca no castelo e conforta-se
com o sol.
Esse sol que antes do mar
queima
e depois do mar
beija.
A frescura do sal.
Brinco com ele.
É ele que canta,
é ele que chora,
é ele que brinca.
E eu, aqui,
longe no perto,
crio sinfonias
à sua inocência.
Aos seus gritos,
aos seus sussurros,
aos seus sorrisos.
Sou um homem que gosta
de ver
crianças
felizes.
Esvaio-me nos ventos e observo-o
a brincar
feliz
enquanto conheço o mundo
reflectido
na inocência
dos seus olhos.
Há que saber ser um bom
pai.
Há que saber ser uma boa
amante.
Há que saber ser um bom
irmão.
Diz-se educação.
Há que saber educar para se ser
analfabeto.
Há que ser sábio.
Beijá-lo com a ignorância.
3.
Troco as montanhas pelo mar.
Esvaio-me na pureza das ondas azuis
e deixo a montanha branca a brilhar lá ao longe.
Vejo a montanha lá ao fundo e,
como farol para um barco,
diz-me onde estou.
E assim, naufrago sem naufragar.
Para quê perder-me se me posso perder encontrado?
Porque é possível estar sem ser
e ser sem estar,
eu prefiro estar e ser.
Quem só é sem estar,
perde o que é ser o estar.
Para isso tenho todo o sempre,
quando um dia voar e for de novo ar.
Agora quero estar. Sendo.
Um homem no seu tempo.
Um homem sem tempo.
Sou e estou.
Em paz.
4.
Há um teatro que se esconde nos meus sonhos
onde tu me beijas
sendo eu.
Cantas amor para mim e enches-me
de vermelhos
e mares
que fluem sobre
a minha pele,
beijando-a
com o cheiro forte da carne.
Nesse teatro eu sou eu
e tu és eu.
Vejo-te a ti e a mim
como um espectador apaixonado
por um quadro de sublimação
do querer e,
de fora,
jogo contigo
e comigo
num jogo de marionetes
em que tu falas para mim e
eu falo para ti.
Falas comigo e mostras-me
a beleza esquecida
na imensidão
do nada.
Estás tão perto e tão longe
que perco-me.
Perco-me e encontro-te.
No meio do teatro.
5.
Entre chuvas sem vazio
bramindo vozes de oceanos
deixo-me arrastar pelos ventos que sopram forte.
Não há montanha que não suba,
não há pedra que não abra por entre rochas de rios.
A força que beija o mar perdido nas montanhas do infinito.
A minha força.
6.
Agarro-te com as mãos duras,
mães endurecidas
pelos calos
da paixão.
Sublimo-te com um abraço
que se deita
em pedras cruas,
que se afoga
nas entranhas que me ardem.
Fogo que me rasgas,
flor que brames em gritos brancos,
sangue que escorre do teu ventre.
Estátuas de mar,
ventos de tempestade
que agarro
com a força dos meus braços
e amo
como pétalas perdidas
numa lágrima de criança.
Agarro esses ventos que levantam árvores
e beijo-os
com a paixão
do meu corpo
suado, porco,
de te amar.
Ah, sonho azul que me rasgas as entranhas.
Anda, vem,
que te vou agarrar
em gritos de silêncio
por entre esses olhos que amam
perdidos no mar.
Esse teu toque brando
que me afoga
de encontro às paredes deitadas sobre
os corpos
que me cortaram a carne.
Cortem-me malditos
que vos vou amar
como putas, como deusas, como seios desenhados
em carne
com sabor ao teu sexo.
Luto contigo como corpo contra barro
moldo-te e moldas-me
no meio deste fogo que arde
sem ar.
Perdi-me em ti amor.
Na tua brisa
cor de maresia.
Na graça com que beijaste
meu pudor.
7.
Fui nadar num rio guardado por deusas que sorriem brisas.
Caminhei nu sem nudez.
Musas sorriam como aves por entre nuvens.
Senti gotas de água suavemente a entrar
nos poros da minha pele.
Senti poeiras escondidas no vento
a beijarem cada recanto do meu corpo.
Senti cada pequeno nada escondido
na imensidão do teu olhar.
De repente, tudo encaixou sem encaixar.
Um sorriso com lágrimas azuis de êxtase
e um sentimento de vitrais de cor branca.
Uma força de infinita paixão beijada com a mais bela serenidade.
E, finalmente, percebi.
Já sabia.
Sempre soubera.
8.
São ondas que acalmo no medo de não te encontrar.
Ah, se me desses um raio de luz num sorriso!
Por ti levantaria mares,
por ti abriria rochas,
por ti
beijaria o sol.
9.
Sinto as palavras gastas.
Escavadas,
cheiradas.
Quero cantar mas
perco-me
em ti.
Em cada palavra,
sinto o teu cheiro
a agarrar-me
a garganta,
como um beijo,
como uma trinca que enche
todo o meu corpo
de mar
perdido em amar.
Não mais consigo escrever,
pois cada palavra
já não é palavra.
Sao ventos com que me agarras,
vulcões de água
com que me beijas,
subo e desço,
atiro-me aos ventos,
caio de montanhas,
mares de vertigens
que rugem
em todo o meu corpo.
Já não são palavras.
São danças de beijos,
histórias de amor,
sinfonias
da nossa secreta insignificância.
Sim, és tu.
Doce bicho,
apaixonado deus.
Sim, és tu que inflamas meu peito,
que ardes meus olhos,
que me atiras como um dardo
de encontro
ao infinito
de teu amar.
Ah, mar que ardes em minha alma,
infinitude de cores que bramem sentir
pintado em convulsões animais
que me matam,
e me fazem nascer
e correr
e beijar
e trovejar
e cantar
e amar.
Caminho já como espectador
de teu sentir,
agarrando cada tua lágrima com a força
de meus braços,
transformando cada teu grito
numa estátua,
imortalizando teu sentir
em meus olhos.
És musa, és deusa,
és um harmonioso silêncio que beija
com a tua paz
um doce bicho e o faz rugir sinfonias
de ternura
que me ardem o peito.
Perdi as palavras.
Ouço apenas silêncio
em cores de mar.
10.
Flutua harmonioso silêncio.
Suspira esse vento azul
que arde
em meus olhos.
11.
Fui invadido pela indiferença
ao amargo sentir abraçando
teu pueril amar.
Sou agora um homem
de corpo forte e austero
sem fala.
Caminho ao teu lado em silêncio,
subindo-te em meus braços
quando queres ver o mar que passa.
Meu corpo,
uso-o para te proteger dos
ventos que sopram fortes nas ruas.
Já não te julgo,
já não te calo.
Apenas caminho contigo,
mão em mão, mudo,
abrindo as portas em que queres entrar.
Ver-te sorrir é benção
que me ilumina em branco,
ver-te amar
é em ti morrer
e eu
deixar de ser.
12.
Lembro-me de um dia em que ouvi
o sol
e não vi luz.
Confundido,
parei a olhar
para as paredes.
Eram altas,
fortes,
sólidas,
cimentadas com a água
da trágica virtude.
Dei-lhes um beijo,
e choraram.
Não percebi.
Porque choravam
tão sólidas
paredes?
E assim,
triste
pelo seu choro,
cada tijolo tirei e
cada tijolo beijei.
Quando acabei,
os tijolos
haviam desaparecido.
Morreras.
Adeus
meu tão grande amor.
Blue and Orange (NYC 2002)
Today I walked through the white mountains
hidden in the echoes of my silence.
As I walked, an old farmer flew through
my solitude and, sweet as a small
girl, danced through sheets of white velvet
gently held by the sun.
I touched him and recognized burned smiles
in damp bodies dreaming the passion of the
nothing.
Flowing in the northern wind, I ran,
lost in the vastness of an orange field,
over the anxious speed of a forgotten dream.
As the morning came, wild flowers cried
in the warmth of a breeze while the wind,
filled with the incense of the sea,
promised a whisper.
And, gentle, from the gist of my tears an
harmony of silence kissed my lips. I was you.
hidden in the echoes of my silence.
As I walked, an old farmer flew through
my solitude and, sweet as a small
girl, danced through sheets of white velvet
gently held by the sun.
I touched him and recognized burned smiles
in damp bodies dreaming the passion of the
nothing.
Flowing in the northern wind, I ran,
lost in the vastness of an orange field,
over the anxious speed of a forgotten dream.
As the morning came, wild flowers cried
in the warmth of a breeze while the wind,
filled with the incense of the sea,
promised a whisper.
And, gentle, from the gist of my tears an
harmony of silence kissed my lips. I was you.
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